“Pare, respire e contemple.” A experiência de chegar ao topo do Pico do Itacolomi, a 1.772 metros de altitude, oferece uma das mais impressionantes vistas de Minas Gerais. De um lado, Ouro Preto; do outro, Mariana. O vento frio, o silêncio interrompido apenas pelo canto dos pássaros e a paisagem montanhosa fazem do local um convite à contemplação.
Mas o Parque Estadual do Itacolomi vai muito além de seu cartão-postal mais conhecido. Em seus mais de sete mil hectares, a unidade de conservação guarda camadas de história que atravessam séculos, desde a presença dos povos indígenas até o ciclo do ouro, passando pela produção de chá no século XX e chegando aos atuais esforços de preservação ambiental e turismo sustentável.
Localizado entre os municípios de Ouro Preto e Mariana, o parque é um dos mais relevantes patrimônios naturais e históricos de Minas Gerais. A área preserva importantes remanescentes de Mata Atlântica e Cerrado, além de abrigar nascentes, paisagens de rara beleza e vestígios da ocupação humana na região. Criado em 14 de junho de 1967, o parque é administrado pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF-MG) e, atualmente, conta com gestão compartilhada por meio de concessão à iniciativa privada para operação turística.
As origens: o território dos Cataguases
Muito antes da chegada dos colonizadores, a região já era habitada pelos indígenas Cataguases, cujo nome significa “habitante do cerrado”. Foram eles que deram à imponente formação rochosa o nome de “itacorumi”, expressão de origem tupi que significa “pedra-menino”.
O Pico do Itacolomi servia como importante referência geográfica para os povos originários e, posteriormente, tornou-se um marco para os bandeirantes que avançavam pelo interior do território em busca de riquezas minerais.
O ciclo do ouro e a Casa Bandeirista ocupação colonial transformou profundamente a região. Entre 1706 e 1708, o segundo Guarda-Mor do Distrito das Minas Gerais, Domingos da Silva Bueno, mandou construir a Casa Bandeirista, considerada por historiadores um dos primeiros edifícios públicos de Minas Gerais.
Erguida em alvenaria de pedra e barro, a construção funcionava como posto de fiscalização da Coroa Portuguesa, responsável pelo controle da circulação do ouro e pela cobrança de tributos sobre a produção mineral.
Atualmente, a Casa Bandeirista integra o circuito histórico do parque e representa um importante testemunho do período colonial, convidando os visitantes a refletirem sobre a formação econômica e social de Minas Gerais.
O mar de chá da Fazenda do Manso
No século XX, a região ganhou uma nova vocação econômica. A Fazenda do Manso se transformou em uma extensa área de cultivo de chá-da-índia (Camellia sinensis), chegando a reunir cerca de 1,8 milhão de pés de chá na década de 1940.
Em 1932, o empresário José de Salles Andrade fundou a Fábrica de Chá Edelweiss, equipada com maquinário de origem alemã. O chá produzido na fazenda era comercializado em Ouro Preto e exportado para outras regiões do país.
A produção mobilizava dezenas de trabalhadores, especialmente moradores do distrito de Lavras Novas, que percorriam longas distâncias a pé para trabalhar na colheita. As mulheres desempenhavam papel fundamental na atividade, carregando grandes cestos de folhas de chá e contribuindo para a construção da memória social da região.
A Capela de São José, construída em meados do século XX, tornou-se símbolo da vida comunitária na fazenda. Além de espaço de devoção religiosa, era um ponto de encontro e organização dos trabalhadores. Uma lenda local conta que os burros de carga se recusavam a seguir por determinado trecho da fazenda, o que teria motivado a construção da capela em homenagem ao padroeiro dos trabalhadores.
Um patrimônio natural e histórico
Criado em 1967, o Parque Estadual do Itacolomi tem como missão preservar importantes ecossistemas, proteger nascentes e promover a pesquisa científica, a educação ambiental e a visitação sustentável.
Mais do que um destino turístico, o parque é um verdadeiro livro aberto sobre a história de Minas Gerais. Suas trilhas, ruínas, construções históricas e paisagens naturais permitem ao visitante percorrer diferentes períodos da formação do estado e compreender a relação entre natureza, cultura e desenvolvimento.
Entre montanhas, memórias e biodiversidade, o Itacolomi revela uma outra face de Ouro Preto e Mariana — menos conhecida, mas igualmente fascinante e essencial para compreender a identidade mineira.
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